

“Manchester” é o apelido mais conhecido de Juiz de Fora, herdado de sua força industrial. Mas talvez pouca gente saiba que a cidade também já foi chamada de “Atenas Mineira”. O título foi dado pelo dramaturgo Arthur Azevedo após visitas à cidade, onde assistiu a montagens de suas próprias peças e reconheceu uma efervescência cultural rara para a época.
Essa vocação artística é o ponto de partida do livro “Cine-Theatro Central: relicário de memórias”, organizado pelo professor, curador, artista plástico e ex-superintendente da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa) José Alberto Pinho Neves. A publicação, que será lançada nesta quinta-feira (16), às 19h, no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), foi viabilizada por meio de edital da Funalfa, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc.
Resultado de cerca de dez anos de pesquisa, o livro ultrapassa a história de um edifício. Como define o organizador, “mais que um livro sobre o Central, é um livro sobre a evolução da cultura em Juiz de Fora”. Para isso, ele recorreu a uma ampla documentação histórica, incluindo jornais de época, fundamentais para a reconstituição dos acontecimentos.
O livro resgata o desenvolvimento da vida teatral na cidade desde o século XIX. Antes da construção do Central, um dos principais espaços era o Teatro Juiz de Fora, localizado na Rua Espírito Santo, em frente à Escola Normal. O imóvel, pertencente aos irmãos Ferreira Lage, foi posteriormente adquirido pela Câmara Municipal para ser transformado em teatro municipal. Com o crescimento da cidade, no entanto, o espaço tornou-se insuficiente.
É nesse contexto que surge o Cine-theatro Polytheama, construído no mesmo terreno onde mais tarde se ergueria o Cine-Theatro Central. A substituição do Polytheama por uma nova e mais moderna casa de espetáculos marcou um momento decisivo na consolidação de Juiz de Fora como polo cultural.
Inaugurado em 1929, o Cine-Theatro Central se firmou como o principal palco da cidade, acompanhando diferentes fases da produção artística local e nacional. O edifício, projetado por Raphael Arcuri e com decoração de Ângelo Bigi, também se destaca pelo valor arquitetônico e urbanístico. Trata-se do primeiro imóvel privado tombado em Juiz de Fora, marco importante na preservação do patrimônio histórico.
A maior parte dos textos do livro é assinada por José Alberto Pinho Neves, que conduz a narrativa a partir de sua pesquisa. A publicação reúne ainda contribuições de autores como Marcos Olender, Antonio Colchete Filho, Luiz Alberto do Prado Passaglia e Vinícius de Oliveira Resende, ampliando o olhar sobre temas como arquitetura, urbanismo e memória.
Entre os destaques estão as biografias de Raphael Arcuri e Ângelo Bigi, sendo esta, segundo José Alberto, “talvez o ensaio mais completo já feito sobre Bigi, inclusive do ponto de vista político”.
Ao articular história, arquitetura, urbanismo e memória cultural, o livro reafirma o papel do Cine-Theatro Central como símbolo da trajetória de Juiz de Fora, um espaço que sintetiza, em sua própria história, a formação cultural da cidade.